Derrotas

As derrotas não foram feitas para serem dramatizadas, mas para se entenderem como grandes momentos de aprendizagem. Assumindo-me sempre como um homem que não gosta de perder “nem a feijões”, aplico muito do meu tempo a tentar perceber as verdadeiras causas daquele resultado. Não vale a pena enganarmo-nos e andarmos a arranjar desculpas e motivos superficiais para justificar o que, muitas vezes, não queremos aceitar. As derrotas estão sempre assentes em motivos concretos que têm que ser corrigidos. Nem sempre perdemos porque jogámos mal ou porque o adversário teve um rendimento superior. Muitas vezes, são aspectos de pura gestão de equipa, desajustamentos no espírito de grupo ou até mesmo alguns factores externos que nos fazem vacilar.

Se é verdade que nem só os maus resultados projectam situações de crise no seio do grupo, deve reconhecer-se que, quando surgem as derrotas, tudo o que dantes era pacífico passa a ser encarado como um problema. Nessas alturas, podem instalar-se climas de nervosismo no grupo, com as pessoas a ficarem pouco tolerantes. Esta situação, só por si, já é problemática. No entanto, o quadro ganha contornos mais graves já que as derrotas agudizam outros possíveis focos de tensão. Associadas a um mau resultado, surge normalmente, desconfianças e pensamentos negativos. Quando as coisas não correm bem, de uma forma geral as pessoas têm tendência para colocar tudo em causa, começando por desconfiar da estratégia, passando pelas dúvidas sobre o estilo de liderança, acabando mesmo por pôr em causa a aptidão para o desempenho de determinadas funções. A questão da motivação volta a ser central. É preciso lançar um novo olhar sobre aquilo a que usualmente chamamos “desânimo” ou “quebra de auto-estima”. Quando falo em “saber gerir uma derrota” refiro-me, particularmente, à necessidade de combater três desses hipotéticos factores de desgaste: as opiniões externas negativas, os pensamentos negativos e os possíveis conflitos internos. Em todos os momentos devemos dar o exemplo e manter o grupo positivo, criativo, tranquilo e confiante. É nestas alturas que a equipa deve assumir uma maior blindagem. Há que reforçar a confiança individual e colectiva focando todo o grupo nos aspectos a melhorar para que rapidamente se possa voltar a ganhar.

Portugal foi das equipas que até agora jogou com mais qualidade e brilhantismo, encheu-nos de orgulho e conseguiu atingir os ¼ de final. A oportunidade dada a outros jogadores foi fundamental para serem dissipadas algumas dúvidas e para estes mesmos jogadores revelarem o seu potencial. Inclusive, neste momento, poder-se-á tornar mais fácil a tomada de decisão em torno da melhor equipa e das melhores opções para o próximo jogo. Mais do que nunca os momentos de maior tensão aproximam-se, seja qual for o adversário sabemos de antemão que temos equipa para vencer.

Data: 16.06.08
Fonte: O Jogo
Partilhar »